A Comunidade Autónoma da Catalunha faz fronteira com as outras comunidades de Aragão e do País Valenciano, e com os estados Andorrano e Francês. Estas barreiras políticas estão gravemente inspiradas, se é que não determinadas, por outras barreiras de natureza mais física. É liquida a barreira que separa, e une, a Catalunha a Aragão; chama-se La Noguera Ribagorçana. A barreira que separa a Catalunha de França, mais sólida esta, é uma extensa cordilheira que vem já desde o Golfo de Biscaia, no pais basco, até ao Cap de Creus: ponto mais oriental da península ibérica. Aparece pois no meio de tanta montanha uma espécie de pais chamado Andorra, que por sua vez se encontra separado e unido à Catalunha de forma líquida e sinuosa pelos caminhos do rio Segre. Segre este ao qual aflui a tal Nogueira de antes e uma outra, a Noguera Pallaresa, e que acaba por se juntar ao grande rio espanhol, o Ebro: o mais caudaloso da península, segundo em tamanho depois do Tejo, que dividimos e partilhamos portugueses e espanhóis. E é este caudaloso e líquido Ebro que separa, e une, a Catalunha de Valência e que acaba na última fronteira da Catalunha, que a separa, e une, ao resto do mundo: o Mediterrâneo.
Há uma canção que eu cantava num coro em criança, inspirada nas palavras de um cosmonauta russo, ao qual lhe impressionava ver que do espaço a terra parecia não ter fronteiras. As palavras simples desse poema falavam das diferenças que existem entre a natureza e as suas barreiras, e as fronteiras territoriais que a raça humana foi inventando. Grandes diferenças entre as duas coisas pese a próximidade geográfica...
Aquilo que mais me impressiona na história da humanidade foram as formas que o homem magicou ao longo dos séculos para superar estas barreiras físicas da natureza e transformá-las em pontos de união entre gentes de diferentes lugares, de diferentes culturas, cores e hábitos; e as coisas que estes forasteiros de mente e espírito aberto sorveram de essas gentes de todos os lados, homens livres de todo o mundo; livres na ignorância e nas ganas de descobrir: iguaizinhos uns e outros, forasteiros e nativos.
Nadámos; inventámos pranchas, canoas e barcos... descobrimos outras terras e outras gentes mar adentro. Subimos montanhas; inventámos raquetes de neve, skis e trenós... e descobrimos que a erva (nem sempre) é mais verde no outro lado da montanha. Saltámos; inventámos planadores, pára-quedas e aviões... descobrimos o livres que somos mais perto dos pássaros. Mergulhámos; inventámos escafandros, garrafas de oxigénio e submarinos... e descobrimos a paz dos peixes no universo submerso das cores, de onde saímos todos os animalinhos terrestes há milhões de anos. Evolution! Revolution!
É por isto que me custa, numa terra catalã tão bonita como é Berga, ouvir a fina-flor do independentismo autóctono gritar vezes sem conta "Visca la terra. Lliure!". A terra é livre, caros amigos, desde sempre; e livres hão de ser os homens que nela habitam. Eu sou, livre! Livre para ir da minha terra à dos outros e descobrir lugares e gente que me fazem sentir como em casa. Levo para dar aos outros aquilo que a "minha" terra, a minha família e as minhas relações me ensinaram e que estão lá e cá, para o que as queira colher.
Visca the homem libre!
PS. Dois pedidos de desculpas... o tema acabou por não ser Andorra, apesar de ter estado quase toda a semana por aquelas terras. Desculpem também o atraso (devia ter saído à sexta) mas a verdade é que quase toda a semana a esquiar cansa um gajo... e só hoje é que deu para acabar de quadrar o que comecei na sexta. Até à próxima!
3 comentários:
Obrigada por te partilhares, "animalinho" maravilhoso!
Nao sei se a música que referes é a que estou a pensar mas não resisto...
"Quem pode parar no céu o voo das gaivotas?
Quem pode deter o ímpeto do mar?
Quem deterá a esperança?
Quem pode impedir um coração de amar?
Se a natureza tivesse fronteiras seria como um portão fechado,
seria uma águia que não tem asas ou uma floresta que não tem caminhos,
seria um campo por semear
ou rio que nunca chega ao mar
A natureza não tem fronteiras
é toda um canto à liberdade,
..."
:) que bom....
Pois eu por mim preferi muito mais as tuas dissertações a teres falado de Andorra.
Viva o homem livre, para isso a minha aposta é All in.
Com o que fico mesmo orgulhoso, e perdoa-me a imodéstia do "orgulhoso", é que passaram muitos anos desde que os manos Pereira andaram a semear experiências, relações, conhecimento, enfim, música. Tudo isso e muito mais, porque percebo que não foram velas ao vento. São antes chamas fortes, resilientes.
Nada nos oferece mais do que as experiências; treckings ou domingos chuvosos em casa, descidas de "Comelladas" ou do Chiado, mergulhos nas Galápagos ou em São Martinho do Porto; navegar rios no alto Atlas Marroquino ou no Sorraia em Benavente, beber uma copa num qualquer armário do Raval ou no Zé Ma'olho, ser pai, ser filho... tudo isto é importante, mas só porque é feito com pessoas. Essas pessoas que ,nunca poderemos esquecer, aliás são impossíveis de esquecer porque nos estão ligadas, entranhadas. É com elas que somos livres, porque é essa a nossa verdadeira natureza: A liberdade.
Beijos
Mano Pedro
PS: bonita foto:-)
Mais uma sábia explanação.
Às vezes não vemos o que está mesmo diante dos nossos olhos...
As maravilhas das montanhas cheias de neve ou nuas, mas igualmente belas (sou um pouco suspeito,as montanhas são como a nossa vida cheias de relevos, por vezes dificies de ultrapassar mas ao fim avistamos novos horizontes.
" o Prazer não está em alcançar o topo, mas sim no caminho para o alcançar"
Abraço.
Enviar um comentário