domingo, março 15, 2009

Mirando a Yucali

Afinal dormi até tarde, afinal mudo de tema, afinal de contas... sou livre! Afinal de contas até tenho uma boa desculpa para chegar atrasado: esta sexta-feira trabalhei... em Olot, que em Portugal viria a ser como Alcobaça ou assim: uma terrinha, com uma igreja bonita.

Ando desde o ano passado de gira com uma palhaça, actriz, acrobata, saxofonista, clarinetista, cantora lírica, poetisa, declamadora... é uma espécie de one-woman-show, não fosse o trio de jazz que a acompanha! E o espectáculo é todo ele jazz, improviso... esta é uma companhia que não ensaia, nunca... e quando finalmente põe os pés na corda, debaixo não há rede! No meu primeiro espectáculo, 20 minutos antes de começar a função chegou-me o guião... que é uma espécie de texto onde é mais fácil perder-se que encontrar-se! "Mirando a Yucali" é sempre igual e sempre diferente... como o rio que passa.

"Mirando a Yucali" depois de visto 20 vezes começa finalmente a fazer sentido na minha cabeça... é a história de um palhaço, Goddote, que carrega pela vida o peso dumas armas inúteis com que se tenta defender. Munido de um capacete azul, não vá o céu cair-lhe em cima; uns óculos de soldador para se defender do sol; um sobretudo ao qual leva atado a selva amazónica; um saxofone barítono sobre os ombros, carregado como uma cruz; umas pulseiras de picos, como os espinhos de uma rosa e umas luvas de boxe... Goddote tenta comunicar, tenta chegar a algum lado, tenta saber o caminho, encontrar soluções, mas é tão grande o fardo... a vida.

Esta personagem carregada dos seus medos, dos preconceitos dos outros e de dúvidas acerca das soluções do Criador acaba por se conseguir despir de todas as suas máscaras e de todos os seus escudos e armaduras, e livre destas defesas consegue chegar ao coração do próximo, dessa forma simples que é a voz poética do povo... em que qualquer pedaço de passeio serve de palco a um musico de rua, qualquer corrimão de corda a um acrobata, qualquer caixa vazia de instrumento a um percussionista, qualquer pessoa de público a um palhaço... numa conversa de balcão, um encontro de escada, numa viagem de metro.

O destino quis um dia que eu me cruzasse com um técnico de luzes lesionado num corredor da universidade, que me adoptou em sua casa enquanto eu não encontrava uma para mim... quis que ele, sonhador megalómano hiperactivo, conhece-se uma palhaça que precisava dum técnico de som. Pum... eis-me assim em "Yucali". 20 espectáculos depois, entre casas ocupadas, tendas de circo, salões paroquiais e teatros de gabarito e por culpa dumas motos, acaba por uns tempos esta minha jornada. O de sexta-feira passada foi na escadaria de um teatro em obras.

Yucali em Olot apanhados pela TV
Alba Sarraute palhaça de serviço
La Flama cultura de base

1 comentário:

ouza_dias disse...

cada vez gosto mais de ler!